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ATESTADO de EMBARQUE de ARRAIS AMADOR - DECLARAÇÃO de FREQUÊNCIA para MOTONAUTA

Edição 1777 - 13 de novembro de 2002
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SOBRE RIO DOS MEDEIROS
na
BAÍA PARANAGUÁ

FONES:

41-33650538 e 41-99158710

E-Mail: geraldo.ormerod@terra.com.br

VELEIRO VADYO

          O desejo de conhecer novos Povos, percorrer mares além de nossos horizontes, vivenciar culturas diferentes, locais até hoje só alcançados em nossa fértil imaginação, se embrenhar nesta grande imensidão de águas, aparentemente sem fim, em todas as épocas levaram e levam o homem a se aventurar pelos mares e oceanos deste nosso planeta.
Na sociedade moderna com a luta diária pela sobrevivência, este desejo natural de navegar, este fascínio pelas coisas ligadas ao mar, fica um pouco camuflado, adormecido no fundo de nossas almas, não passam de mais um sonho, nada mais.
Quantos de nós não nos flagramos, por vezes, sonhando acordados, com uma viagem em um veleiro, com uma ilha paradisíaca, a sombra de coqueiros, com águas transparentes, navegando por mares tranqüilos.
Mas a realidade é outra, escondido pela rotina da vida na cidade, os sonhos vão sendo esquecidos, e a luta diária vai tomando conta de nossas vidas, o tempo vai passando, o relógio não para nunca.
A busca pela sobrevivência nas grandes cidades, principalmente, é implacável e constante e talvez nos roube os melhores momentos da vida; quando nos damos conta da realidade a vida já passou e os sonhos ficaram para sempre adormecidos, foram sonhos nada mais.
São muito poucos os privilegiados, que rompendo e vencendo com as barreiras de nossas sociedades consumistas e por vezes chamadas de loucos, malucos, aventureiros, sem juízo e etc..., conseguem se livrar disto tudo e partem para a realização de seus sonhos.
Chegou o momento em que é necessário se parar de sonhar, de planejar, de esperar acontecer e acreditando na imensa capacidade de realização que existe em cada um nós, com determinação e motivação, partimos para realizar o nosso sonho, romper com as amarras, levantar âncora e partir, simplesmente partir.
O Veleiro Vadyo, Valéria e eu, Geraldo Ormerod, estamos soltando as amarras, levantando âncora e partindo.

O mais difícil foi deixar os filhos,Fabiane,Fábio e Daniel !
O Sonho se torna Realidade, nascendo assim de nossos devaneios, embalados pelo desejo de navegar e acalentado por muitos anos de espera e planejamento, o tão desejado:

Projeto Atlântico 2002

Nossa saída de São Francisco do Sul – SC:

Às 15:00 horas, bem na hora marcada para soltar as amarras, tivemos uma entrevista, ao vivo, com uma rádio de Curitiba .

Ao iniciarmos a desatracação recebemos um pequeno pacote, muito bem embrulhado e totalmente fechado com fita durex, de nosso primo Wilfredo com os dizeres: “ATENÇÃO – Só pode ser aberto na Lat. 00°000’.
Enfim partimos, soltamos as amarras, iniciava um sonho... o Projeto Atlântico 2002 saía do papel... já era uma realidade.
Diversas embarcações nos acompanhavam, numa lancha estavam diversos amigos vindos de Curitiba e nossos filhos, em nosso Vadyo, a madrinha, Ana Maria, ia fazendo uma festa muito grande com Valéria, estava muito lindo e para segurar a emoção era difícil.
Aos poucos as embarcações foram se despedindo e retornando, após a passagem do Sumidouro e da saída da barra, estávamos navegando sozinhos.
........para nossa surpresa e de todos, entrou um vendaval, ventos de 30 a 35 nós, o céu, de repente ficou negro,o mar cresceu rapidamente com ondas altas, recolhemos a genoa e rizamos ao máximo a Mestra.
O Vadyo velejava a 8/9 nós, na realidade estávamos surfando nas ondas que entravam de popa/alheta de boreste, Valéria começou a sentir-se mal, enjoando, e no rádio diversos amigos nos preveniam da frente que chegava repentinamente, uns diziam para voltarmos, outros para prosseguirmos, outros simplesmente se despediam e nos desejavam felicidades, uma confusão geral no rádio.

Em meio a tudo isto tomei a decisão: “Vamos correr com o vento”, estava resolvido, vamos em frente, rumo a Santos, em São Paulo.

E assim navegamos por cerca de 3 anos, subimos toda a costa brasileira, percorremos o Caribe e partimos para Cabo Canaveral, nos Estados Unidos.

........ saímos de St. Maartin, no Caribe, rumo aos Estados Unidos, seria uma navegada de cerca de 15 dias, sem termos terra a vista....
A noite estava muito escura, somente céu e mar, mas tudo corria bem e a favor, estávamos na Costa da Florida, no outro dia estaríamos chegando ao nosso destino, em Cabo Canaveral.......
...... de repente, as 23:00 horas sofremos um forte impacto, fui projetado para dentro da cabine, o barco adernou violentamente para boreste, uma grande onda inundou o interior do veleiro, seguidamente adernou para o lado contrário,
e novamente uma grande onda voltou a entrar no barco, ao mesmo tempo um grande barulho de coisas quebrando e tudo, tudo no interior do veleiro voava de um lado para outro, no escuro......
.......tínhamos acabado de bater em um contêiner, perdido, flutuando no mar, no meio da noite.
Valéria gritava que estávamos afundando.......verifiquei que eu e Valéria estávamos bem, sem maiores danos físicos, o interior do veleiro estava todo destruído, os mantimentos espalhados, garrafas quebradas, os armários se quebraram, nossas roupas boiavam na água, era um caos total, avaliei a situação, vi a proa semi destruída e o convés aberto na junção do costado de proa a popa, mas tínhamos uma flutuabilidade positiva.
.......soltamos um may-day pelo rádio VHF.......fomos contatados pela US Coast Guard, que veio em nosso socorro.
A partir daí nos preparamos para o pior, um naufrágio era eminente, estávamos com coletes salva-vidas, aprontei a balsa de abandono, reforcei o saco de abandono com mais comida e água, coloquei mais sinalizadores, separei nossos documentos pessoais, tudo pronto no cockpit para abandonar o veleiro, em caso de um naufrágio...

                              A cada dez minutos passávamos nossa posição para a US Coast Guard, caso contrário seríamos considerados náufragos e resgatados pelo helicóptero, coisa que eu não desejava, pois nestes casos tem que abandonar a embarcação ......após cerca de duas horas avistamos uma luz no horizonte, era a embarcação de socorro que chegava, estávamos salvos.
..... escoltados por uma fragata da marinha americana, seguimos, precariamente e com muito cuidado para o continente, navegamos toda à noite, até o raiar do dia, buscando  segurança no interior da Intercoastal Waterway, em Fort Pierce.                             
Gostaríamos de dizer, para finalizar, que apesar de nosso acidente na Costa da Flórida, USA, tudo valeu a pena, se fosse necessário faríamos tudo de novo, e sobretudo acreditar em seus Sonhos, lutem por eles, façam deles uma meta e os transformem em Realidade.

Valéria e Geraldo Ormerod